• Sintonize sua vibração


         Quando eu decidi vir para Austrália, sabia tanto o que queria, que esqueci de me informar sobre a vida por aqui. Não perguntei nada a ninguém e lógico, fiquei totalmente perdida nas primeiras semanas. Paguei excesso de bagagem logo de cara e demorei três dias para chegar. Passei um monte de vergonha e quis voltar no primeiro dia. Pois, quer saber como foi essa chegada? Senta aí, que lá vem história.

          Ainda sonolenta, custei a entender o que os “aussies” falavam no aeroporto. Mas deu para perceber que uma voz no microfone chamava Mrs. Lemos. Fui no balcão da companhia aérea:

    “Hi, I am Fabiana Lemos. Whatis happening”? Como quem fala com um ovo na boca, a moça me disse: “Sor, yohbãgãgiis in eleAiiiii. Ruaitehiahhhyouhemail”. Entendi apenas o contexto: “Bem-vinda à Austrália, sua mala sumiu”. Sim, o pesadelo das malas extraviadas chega um dia para todos nós.

          Cheguei no apartamento, já senti um cheiro de comida forte. Olhei a pia, tinha panela de macarrão do dia anterior, latas de cerveja, cinzas de cigarro. Andei mais um pouco, vi uma perna tatuada, pendurada no sofá da sala. “É uma pessoa”? Sim, era uma menina.

          Fui tomar banho, mas lembrei que não tinha toalha. “Ah, que ótimo. Depois eu vejo isso, então. Preciso dormir”. Abri a janela, estava chovendo, olhei em volta e tudo parecia escuro. Me deitei e acredite: chorei como criança “O quê que eu estou fazendo aqui”?

          Eu precisava comprar toalha e comida. Acabei parando no único lugar aberto que achei: um restaurante mexicano. Paguei 15 dólares (quase 50 reais) por uma comida mole horrorosa. Enquanto comia, perguntei aonde ficava o supermercado. O atendente respondeu: “Woolies está há 08 minutos daqui”. “Como assim? O nome é Woolworths! (Acostumem-se: australiano corta as palavras e a gente fica perdido).

          No supermercado, eu não sabia aonde achar nada. Lembro que comprei tudo que tinha escrito “sale”. Só esqueci que não tinha mais um carro me aguardando no estacionamento: levei umas dez sacolas de comida no braço e no caminho, descobri que meu bairro era praticamente a Olinda de Brisbane: ladeira para todo lado.

          Essa é uma cena, em que eu nunca vou esquecer: eu, com todo o meu bronze, de quem usa fator 70 de protetor solar, com os braços vermelhos e as pernas tremendo, tendo crises de risos, no meio da rua. As sacolas, claro, rasgaram. E só Deus para explicar como cheguei em casa.

          As malas ainda não haviam aparecido. E eu precisava ir à aula. Fui com a roupa do dia anterior e um chinelo que estava na bolsa. Era fevereiro e tinha um sol para cada pessoa. A escola estava há 10 minutos de casa, mas eu me perdi e minha única sandália quebrou no meio da “ladeira da Misericórdia”. Cheguei atrasada, suada, descabelada e mancando. A recepcionista me recebeu: “Hi, can I help you”? Consegui falar: “água, please”.

          Como era aula inaugural, a escola preparou um delicioso “barbie” para os alunos. “Quê”? “Barbicue, churrasco”. “Ah, graças a Deus! Comida. Carne. Farofa. Aí que delícia”. Fiquei na fila: “maionese ou ketchup”? Me deram um pão com salsicha. “Não pode ser”! Eu não comia salsicha. Também não comia pão. Sentei desolada com o prato na mão.

           Voltei para casa e acreditem: a moça tatuada permanecia lá. “Não era possível”. Mandei uma mensagem para o responsável da casa: “olha só, acho que a menina está morta e eu sou a única testemunha”. “Socorro, me tirem daqui”!

           Horas depois, minha flatmate deu sinais de vida. Com um só um olho aberto ela me falou: “Olá, que bela! Du iusmoke”? Opa, temos uma estrangeira bem viva. Mas confesso que nos próximos dias, desejei que ela voltasse a dormir por toda a vida.

          Surgiu então, uma nova personagem: uma francesa baladeira. As duas não gostavam de estudar e saiam para festas todos os dias. Todos! A casa ficava uma bagunça e ninguém queria lavar os pratos. Eu, a tia da turma, em muitas vezes quis dar uma voadora nos meus únicos contatos na Austrália. Mas, aos poucos fui me adaptando e aceitando que somos todos diferentes. A italiana dormia três dias seguidos mesmo e a francesa queria me levar na balada a todo custo.

          Aceitei um convite para praia. Chegando lá: “cadê os barzinhos, os restaurantes, a água de coco e a cerveja gelada”? Enquanto eu pensava no que não tinha, a francesa ligou o som e a italiana estirou um lençol de cama na areia. Eu peguei o meu livro que havia pego na biblioteca ao lado de casa e olhei para o céu. Ali, percebi que estava mesmo na Austrália. Como é linda a simplicidade desse lugar. Respirei profundo, agradeci e me sintonizei rapidamente com aquele jeito de viver.

          A “vibe” da Austrália é isso: jogar uma toalha na areia (ou um lençol), se encher de protetor solar, tomar muito banho de mar, ouvir música de todo lugar do mundo, fazer amizade com estranhos, relaxar, se encher de paz e amor e apreciar o pôr do sol.

         Agora, sim, me sinto conectada. E quando isso acontece, tudo flui, vai por mim. Rapidamente fiz amigos de países, idades e educações diferentes; parei de enlouquecer com a conversão; aprendi a comprar o necessário, a cozinhar e a limpar a casa; encontrei um emprego pelo facebook como aupair (baby sitter) e fui morar em uma casa australiana cheia de amor.

         O primeiro mês foi mesmo diferente do que imaginei, mas eu sabia que era isso que eu precisava viver: me testar, olhar por outros ângulos, respirar e não desistir. O estranhamento faria parte do processo de mudança. E mudar dói mesmo. Incomoda. O mais importante é a gente se conhecer, saber o que quer e entender que toda escolha tem ganhos e perdas.

    Desligue-se de tudo o que já viveu no Brasil e apenas sinta. Aproveite a sua jornada e viva o seu hoje pois, de alma leve, a gente se reinventa. Quando eu entendi isso, me vi a pessoa mais feliz do mundo, simplesmente por estar aqui, sabendo lidar com serenidade às adversidades. Então é isso: sintonize a sua vibração e prepare-se para a sua incrível vida nova.